Huzzé
Texto do Ir. Rui Samarcos Lóra* - Revista The Square. Ed. Abr/26

O artigo analisa a expressão ritualística “Huzzé”, usada na maçonaria, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito. A questão central é: essa palavra é apenas um grito de celebração (como “viva!”) ou carrega um significado simbólico mais profundo, possivelmente de origem hebraica?
O problema: é uma palavra “fora do padrão”
Na tradição maçônica, grande parte das palavras sagradas e senhas têm origem no hebraico bíblico, o que garante coerência simbólica ao sistema. No entanto, “Huzzé” parece fugir desse padrão, pois sua origem é amplamente debatida.
Isso levanta uma pergunta importante:
por que justamente essa palavra, tão importante no ritual, teria uma origem diferente das demais?
A explicação histórica: origem inglesa (Huzzah)
A explicação mais aceita do ponto de vista histórico é que “Huzzé” deriva do termo inglês “Huzzah”, usado desde o século XVII como um grito de alegria, vitória ou saudação.
Esse grito era comum: entre marinheiros (para sincronizar esforços), em contextos militares (antes de batalhas) e em celebrações públicas.
Com o tempo, esse termo foi incorporado à maçonaria, principalmente no século XVIII, por influência de militares britânicos e jacobitas na França.
Nos rituais, passou a ser utilizado como uma aclamação coletiva, geralmente repetida três vezes.
Inclusive, há registros históricos claros:
já era usado em cerimônias maçônicas no século XVIII;
aparece em rituais franceses e belgas como “Houzzai” ou “Houzé”;
era entendido simplesmente como um grito de júbilo, equivalente a “Viva!”
Outros ritos reforçam essa ideia:
usam “Vivat!” (latim: “viva!”) - Rito Adonhiramita
ou “Glória!”;
ou slogans como “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. (Rito Moderno)
Ou seja, o elemento essencial parece ser o ato de aclamar, não a palavra específica.
A hipótese simbólica: origem hebraica (Hu Zé)
Apesar da forte base histórica inglesa, o artigo explora uma interpretação simbólica mais profunda: a possível origem hebraica da palavra.
A hipótese é que “Huzzé” derive de “Hu Zé” (הוּא זֶה), que significa:
“Ele é este” ou “Este é Ele”
Essa expressão aparece em estruturas bíblicas relacionadas à identificação — especialmente em perguntas como:
“Quem é este?” (Mi Hu Zé)
E respostas implícitas:
“Este é Ele.”
Exemplos bíblicos mostram esse padrão:
identificação de objetos ou pessoas (Êxodo);
questionamentos sobre a identidade divina (Salmos);
afirmações de reconhecimento.
Dentro do contexto simbólico maçônico, isso ganha um significado profundo:
A aclamação poderia representar o reconhecimento do divino — ou seja, uma afirmação de que “o que buscamos está presente aqui”.
Nesse sentido, o “Huzzé” deixaria de ser apenas um grito e passaria a ser:
um ato de reconhecimento;
uma identificação do absoluto;
uma afirmação espiritual no momento ritual.
3. O confronto: história vs. simbolismo
O ponto mais interessante do artigo é que ele não tenta forçar uma única resposta. Em vez disso, ele mostra que existem dois níveis diferentes de verdade:
Verdade histórica
Origem inglesa (“Huzzah”);
Uso militar e naval;
Entrada na maçonaria no século XVIII;
Função de aclamação coletiva.
Verdade simbólica
Possível leitura como “Hu Zé”;
Conexão com linguagem bíblica;
Uso como expressão de reconhecimento do divino;
Integração coerente com o sistema simbólico maçônico.
A maçonaria, segundo o texto, funciona justamente nessa dualidade:
é ao mesmo tempo histórica e simbólica;
factual e interpretativa;
externa e interna.
Conclusão: duas verdades coexistem
Historicamente, “Huzzé” vem do inglês e é um grito de celebração.
Simbolicamente, pode ser reinterpretado como uma afirmação espiritual profunda.
Ou seja:
Uma palavra pode ter uma origem simples, mas adquirir um significado elevado dentro de um sistema simbólico.
Essa coexistência é típica da tradição maçônica, onde elementos comuns são ressignificados para transmitir ensinamentos filosóficos.
“Huzzé” pode ser entendido de duas formas complementares:
como um grito de vitória e união;
ou como uma declaração de reconhecimento do sagrado.
*Rui Samarcos Lora é um pesquisador acadêmico de origem italiana e brasileira, radicado na Espanha. Seu trabalho estabelece uma ponte entre a produção acadêmica internacional, os estudos maçônicos e a Cabalá.
Ele é pesquisador de doutorado no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, possui mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora e especialização em Ciência Política pela Universidade de Brasília.
Foi reconhecido como bolsista SYLFF pela Tokyo Foundation for Policy Research.
Atualmente, é membro da Holy Land Lodge No. 50, sob a Grande Loja de Israel, e membro correspondente da Loja de Pesquisa Dom Bosco No. 33 (GLMDF do Brasil).
No campo do pensamento místico judaico, é discípulo do Prof. Dr. Meir Sabán. Também é fundador do Roy Luria Institute, dedicado ao estudo do hebraico e da Cabalá, além de atuar como escritor e tradutor de importantes obras maçônicas.
O núcleo de seu trabalho está na promoção de um diálogo entre a sabedoria cabalística tradicional e os desafios do pensamento social contemporâneo.





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