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Huzzé

25 de mai.
3 min de leitura

Texto do Ir. Rui Samarcos Lóra* - Revista The Square. Ed. Abr/26



O artigo analisa a expressão ritualística “Huzzé”, usada na maçonaria, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito. A questão central é: essa palavra é apenas um grito de celebração (como “viva!”) ou carrega um significado simbólico mais profundo, possivelmente de origem hebraica?


O problema: é uma palavra “fora do padrão”


Na tradição maçônica, grande parte das palavras sagradas e senhas têm origem no hebraico bíblico, o que garante coerência simbólica ao sistema. No entanto, “Huzzé” parece fugir desse padrão, pois sua origem é amplamente debatida.


Isso levanta uma pergunta importante:

por que justamente essa palavra, tão importante no ritual, teria uma origem diferente das demais?


A explicação histórica: origem inglesa (Huzzah)


A explicação mais aceita do ponto de vista histórico é que “Huzzé” deriva do termo inglês “Huzzah”, usado desde o século XVII como um grito de alegria, vitória ou saudação.


Esse grito era comum: entre marinheiros (para sincronizar esforços), em contextos militares (antes de batalhas) e em celebrações públicas.


Com o tempo, esse termo foi incorporado à maçonaria, principalmente no século XVIII, por influência de militares britânicos e jacobitas na França.


Nos rituais, passou a ser utilizado como uma aclamação coletiva, geralmente repetida três vezes.


Inclusive, há registros históricos claros:


  • já era usado em cerimônias maçônicas no século XVIII;

  • aparece em rituais franceses e belgas como “Houzzai” ou “Houzé”;

  • era entendido simplesmente como um grito de júbilo, equivalente a “Viva!”


Outros ritos reforçam essa ideia:


usam “Vivat!” (latim: “viva!”) - Rito Adonhiramita

ou “Glória!”;

ou slogans como “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. (Rito Moderno)


Ou seja, o elemento essencial parece ser o ato de aclamar, não a palavra específica.


A hipótese simbólica: origem hebraica (Hu Zé)


Apesar da forte base histórica inglesa, o artigo explora uma interpretação simbólica mais profunda: a possível origem hebraica da palavra.


A hipótese é que “Huzzé” derive de “Hu Zé” (הוּא זֶה), que significa:


“Ele é este” ou “Este é Ele”


Essa expressão aparece em estruturas bíblicas relacionadas à identificação — especialmente em perguntas como:


“Quem é este?” (Mi Hu Zé)


E respostas implícitas:


“Este é Ele.”


Exemplos bíblicos mostram esse padrão:


identificação de objetos ou pessoas (Êxodo);

questionamentos sobre a identidade divina (Salmos);

afirmações de reconhecimento.


Dentro do contexto simbólico maçônico, isso ganha um significado profundo:


A aclamação poderia representar o reconhecimento do divino — ou seja, uma afirmação de que “o que buscamos está presente aqui”.


Nesse sentido, o “Huzzé” deixaria de ser apenas um grito e passaria a ser:


um ato de reconhecimento;

uma identificação do absoluto;

uma afirmação espiritual no momento ritual.

3. O confronto: história vs. simbolismo


O ponto mais interessante do artigo é que ele não tenta forçar uma única resposta. Em vez disso, ele mostra que existem dois níveis diferentes de verdade:


Verdade histórica

Origem inglesa (“Huzzah”);

Uso militar e naval;

Entrada na maçonaria no século XVIII;

Função de aclamação coletiva.


Verdade simbólica

Possível leitura como “Hu Zé”;

Conexão com linguagem bíblica;

Uso como expressão de reconhecimento do divino;

Integração coerente com o sistema simbólico maçônico.


A maçonaria, segundo o texto, funciona justamente nessa dualidade:


é ao mesmo tempo histórica e simbólica;

factual e interpretativa;

externa e interna.


Conclusão: duas verdades coexistem


Historicamente, “Huzzé” vem do inglês e é um grito de celebração.

Simbolicamente, pode ser reinterpretado como uma afirmação espiritual profunda.


Ou seja:


Uma palavra pode ter uma origem simples, mas adquirir um significado elevado dentro de um sistema simbólico.

Essa coexistência é típica da tradição maçônica, onde elementos comuns são ressignificados para transmitir ensinamentos filosóficos.



“Huzzé” pode ser entendido de duas formas complementares:


como um grito de vitória e união;

ou como uma declaração de reconhecimento do sagrado.


*Rui Samarcos Lora é um pesquisador acadêmico de origem italiana e brasileira, radicado na Espanha. Seu trabalho estabelece uma ponte entre a produção acadêmica internacional, os estudos maçônicos e a Cabalá.

Ele é pesquisador de doutorado no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, possui mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora e especialização em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

Foi reconhecido como bolsista SYLFF pela Tokyo Foundation for Policy Research.

Atualmente, é membro da Holy Land Lodge No. 50, sob a Grande Loja de Israel, e membro correspondente da Loja de Pesquisa Dom Bosco No. 33 (GLMDF do Brasil).

No campo do pensamento místico judaico, é discípulo do Prof. Dr. Meir Sabán. Também é fundador do Roy Luria Institute, dedicado ao estudo do hebraico e da Cabalá, além de atuar como escritor e tradutor de importantes obras maçônicas.

O núcleo de seu trabalho está na promoção de um diálogo entre a sabedoria cabalística tradicional e os desafios do pensamento social contemporâneo.

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