Símbolo de Transição, Equilíbrio e Consciência
Texto do Ir. René Pfertzel* - Revista Square - Agosto/2020

As duas colunas do Templo de Salomão constituem um dos símbolos mais marcantes da tradição maçônica, carregando significados que ultrapassam sua função arquitetônica original. Mais do que elementos estruturais, essas colunas representam princípios fundamentais relacionados à passagem do profano ao sagrado, à dualidade da existência e ao equilíbrio necessário para o desenvolvimento humano e espiritual.
Historicamente, as colunas aparecem nos textos bíblicos como parte integrante do Templo de Salomão, sendo posicionadas à entrada do edifício sagrado. Nomeadas tradicionalmente como Jachin e Boaz, elas não tinham função estrutural evidente, pois não sustentavam o edifício, mas possuíam um papel simbólico marcante. Sua localização na entrada reforça a ideia de limiar: não eram apenas ornamentos, mas marcos que delimitavam a transição entre dois mundos distintos — o exterior profano e o interior sagrado.
Essa característica liminar revela um dos aspectos mais importantes de seu simbolismo. Ao atravessar esse portal, o indivíduo não apenas muda de espaço físico, mas também é convidado a adotar uma nova postura interior. A entrada no templo implica disciplina, consciência e respeito por uma dimensão superior da existência. Nesse sentido, as colunas funcionam como guardiãs simbólicas de um espaço onde o comportamento, o pensamento e a intenção devem estar alinhados com princípios mais elevados.
Além de sua função como portal, as colunas também são frequentemente interpretadas como representações da dualidade. Diversas tradições associam seus significados a pares complementares, como força e estabilidade, poder e sabedoria, ação e controle. Essa dualidade não implica oposição irreconciliável, mas sim complementaridade. A verdadeira harmonia não está na supremacia de um princípio sobre o outro, mas no equilíbrio entre ambos.
Essa ideia é reforçada no contexto iniciático maçônico, especialmente na progressão do Aprendiz para o Companheiro. O iniciado passa simbolicamente entre as duas colunas, sem privilegiar uma em detrimento da outra, indicando que o caminho do aperfeiçoamento exige integração. A força sem controle pode levar ao desequilíbrio, enquanto o controle sem força torna-se ineficaz. Assim, o progresso humano depende da capacidade de harmonizar essas energias complementares.
Outro aspecto relevante do simbolismo das colunas está relacionado à sua dimensão cosmológica. Algumas interpretações ligam essas estruturas aos ciclos naturais, como o sol e a lua, ou à orientação do templo em relação ao movimento solar. Nesse contexto, as colunas passam a representar não apenas princípios humanos, mas também leis universais que regem a ordem do cosmos. Essa conexão reforça a ideia de que o templo — e, por extensão, o próprio homem — está inserido em uma realidade maior, regida por equilíbrio e harmonia.
No desenvolvimento histórico, observa-se que as colunas não foram reconstruídas no Segundo Templo, o que levanta questionamentos sobre sua função original. Ainda assim, sua importância simbólica foi preservada e amplificada na Maçonaria. Elementos que, no contexto arquitetônico, poderiam ser considerados secundários, tornaram-se centrais no sistema simbólico maçônico, demonstrando a capacidade da tradição de ressignificar e aprofundar significados ao longo do tempo.
Dentro da Loja maçônica, as colunas continuam a desempenhar esse papel de referência simbólica. Elas marcam o início de um espaço onde o comportamento é regulado por códigos específicos e onde o indivíduo é chamado a elevar sua consciência. Não se trata apenas de atravessar um espaço físico, mas de entrar em uma dimensão de maior responsabilidade moral e espiritual.
Dessa forma, as duas colunas sintetizam múltiplos níveis de significado. Elas representam o limiar entre mundos, a necessidade de equilíbrio entre forças opostas e a integração do indivíduo em uma ordem maior. Sua permanência na tradição maçônica evidencia que o verdadeiro valor dos símbolos não está em sua materialidade, mas na capacidade de transmitir ensinamentos profundos.
Conclui-se, portanto, que as duas colunas não são apenas elementos decorativos ou históricos, mas instrumentos pedagógicos de grande relevância. Elas ensinam que o caminho do desenvolvimento humano exige consciência, equilíbrio e disciplina. Ao atravessá-las, o indivíduo não apenas entra em um templo, mas inicia — ou renova — seu compromisso com uma jornada de transformação interior.
*René Pfertzel foi iniciado em 1992 na Loja Ouverture et Fraternité 1540, da Le Droit Humain. Tem PhD em estudos bíblicos. Atualmente mora em Surrey.





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