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O Deus de Espinoza

27 de abr.
4 min de leitura

Texto do Ir. Clóvis Roberto Cassiani



UM DEUS DIFERENTE DO QUE IMAGINAMOS


Sempre que ouvimos “Deus”, muitos de nós acabam imaginando um ser onipotente, quase como um rei invisível – que governa o mundo (mundos?), decide destinos, pune, recompensa, interfere e faz julgamentos. Baruch Spinoza (ou Bento de Espinoza), que foi um pensador holandês do século XVII, quebra essa imagem logo de início, formulando uma concepção – talvez radical – e extremamente racionalista de Deus.


Resumidamente, para Espinoza:


- Deus não é um ser pessoal que interfere na história;


- Deus não tem vontade, emoções ou intenções como no teísmo tradicional;


- Deus é a substância única e infinita que constitui tudo o que existe.


Em sua concepção, Deus não está fora do mundo – Deus é a própria realidade. Deus é o próprio universo.


E neste ponto, nós devemos ter cuidado. Quantas vezes nos colocamos frente a uma obra natural – uma cachoeira, uma linda praia, montanhas, etc – e dizemos que “A Natureza é bonita e por isso é divina”. Isto é muito superficial, mal chega a tatear o conceito. Para Espinoza, ambos são a mesma realidade.


Ele usa a expressão latina Deus sive Natura — “Deus, isto é, a Natureza”.


Façamos um exercício de pensamento: Imaginemos que Deus não é o artista da obra.


Pense em Deus como a própria tela, as tintas, o pincel, o movimento da mão e a pintura ao mesmo tempo, sempre foi e sempre será.


Só que quando concebemos Deus como o Todo (em nossa analogia - a tela, as tintas, o pincel, o gesto e a pintura – tudo ao mesmo tempo) propomos uma ontologia (estudo do que realmente existe) unitária – talvez até radical – onde não existe absolutamente nada fora desta realidade.


Essa perspectiva dissolve a separação entre criador e criação e afirma que “tudo o que é” constitui expressão necessária de uma única substância infinita(Deus).


E eis o ponto de tensão: Mas se Deus é totalidade, unidade, o Todo – então é também sofrimento, injustiça e dor. Tudo isso integrado na mesma estrutura ontológica. Não como permissões, mas simplesmente como modos de manifestação do próprio ser.


Em uma visão tradicional, bem e mal seriam realidades objetivas, diretas e universais:


- O bem é algo que corresponde à vontade de Deus.


- O mal é algo que se opõe a ela.


Na visão de Espinoza, Deus não é um legislador moral externo. Deus é a própria realidade.


Mas, se tudo é expressão da mesma substância, então:


- Não existe algo “contra” Deus.


- Não existe algo “fora” da ordem do todo.


Logo, bem e mal não são qualidades absolutas do universo — são avaliações humanas.


Por exemplo:


- Uma tempestade destrói uma casa - para o morador, é um mal.(Chao ab Ordo)


- A mesma tempestade irriga o solo - para o ecossistema, é condição de vida. (Ordo ab Chao)


A natureza, em si, não é “boa” nem “má”. Ela simplesmente é, a variável “humano” que transforma o resultado da equação.


Quando pensamos assim, bem e mal passam a refletir:


- O que favorece nossa conservação.


- O que ameaça nossa existência.


- O que compreendemos ou não compreendemos.


De forma que são categorias relativas à nossa perspectiva finita.


DEUS NÃO É UM “ALGUÉM” — É O TODO


Espinoza não acredita em um Deus que escolhe, se irrita, decide, muda de ideia. Ele acredita que tudo aquilo que existe decorre necessariamente da natureza divina. Imagine o Sol. O Sol não escolhe iluminar. Ele ilumina porque é parte de sua natureza emitir Luz.


Da mesma maneira, Deus não decide criar o mundo. O Mundo existe porque é parte da natureza de Deus existir e se expressar. Sem intenções, caprichos ou favoritismo. Simplesmente é. Talvez isso possa parecer frio ou até mesmo insensível em primeiro momento. Mas acreditem:


É libertador.


O LIVRE-ARBÍTRIO


Como falamos acima, se tudo é decorrente da natureza divina, isso significa que somos livres? Espinoza afirma positivamente – mas não da maneira que imaginamos.


Para ele, o Livre-arbítrio não deve ser entendido como “posso escolher qualquer coisa, independente das causas”, para ele “tudo tem causa”. Mas liberdade não significa ausência de causa. Liberdade significa compreender as causas.


Imagine lançar uma pedra ao ar – a pedra acredita que voa por vontade própria. E nós fazemos algo parecido quando achamos que nossas escolhas surgem do nada. Quanto mais entendemos por que agimos, mais livres nos tornamos.


DEUS NON PUNIT — NOS EFFECTUS COLLIGIMUS.


Deus não pune, nós colhemos os efeitos. E isto faz sentido uma vez que entendemos que Deus não é um Juiz. Ora, desta maneira não existe punição divina. Existem sim, consequências naturais: Imagine alguém que viva a vida dominado pela inveja, rancor, ódio ou medo. Esta pessoa não será “punida” por Deus.


Essa pessoa viverá em um estado de enfraquecimento interior, determinada por ações que diminuem sua capacidade de agir, experimentando tristeza enquanto permanecer sob esse domínio.


(Espinoza define tristeza como diminuição de potência de existir, e alegria como aumento dessa potência.)


Deus não nos vigia, mas a estrutura da realidade faz com que o modo como vivemos fortaleçam ou enfraqueçam quem somos.


Imagine que alguém se alimente mal, abuse da bebida alcoólica ou faça uso de entorpecentes. Não é o corpo que “pune”. São efeitos naturais deste modo de vida.


CONCLUSÃO


O Deus de Espinoza é profundamente presente, porém, é impessoal. Talvez a ideia de um Deus impessoal possa parecer distante, mas paradoxalmente o Deus de Espinoza é o mais próximo possível. Senão vejamos, ele não está “acima” de nada – não mora em um trono dourado. Ele está em absolutamente tudo o que existe: Cada árvore, pensamento, emoção, cada lei da física – tudo é expressão da realidade infinita.


Não há divisão entre o sagrado e o profano. Tudo é expressão do mesmo Ser.




BIBLIOGRAFIA


BECKER, Rafael Cataneo; FRAGOSO, Emanuel Angelo da Rocha; GUIMARAENS, Francisco de; ITOKAZU, Ericka Marie; ROCHA, Maurício (org.).


Spinoza e nós: Spinoza, a guerra e a paz. Volume 1. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2017. E-book. ISBN 978-85-8006-218-2.


NOGUEIRA, Daniel. Viver Spinoza. In: BECKER, Rafael Cataneo et al. (org.). Spinoza e nós: Spinoza, a guerra e a paz. Volume 1. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2017. p. 12–20.


ESPINOSA, Baruch de. Ética demonstrada à maneira dos geômetras. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

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