O Homem que Queria Ser Rei: poder, ambição e uma lição maçônica

Texto do Ir. Edgard da Costa Freitas Neto, publicado na Revista Ciência & Maçonaria, em 2013.
Há histórias que parecem aventura, mas no fundo são advertências.
“O Homem que Queria Ser Rei”, de Rudyard Kipling, é uma dessas. Dois sujeitos, Daniel Dravot e Peachey Carnehan, partem para uma região distante com um plano quase absurdo: conquistar tribos, organizar um exército, dominar um território e se tornarem reis.
Parece delírio. E é.
Mas é justamente nesse delírio que a história ganha força.
O artigo de Edgard da Costa Freitas Neto mostra que o conto de Kipling não é apenas uma narrativa de aventura. Há nele uma camada maçônica muito clara. Kipling foi maçom, conhecia os símbolos, os sinais, a linguagem ritualística e a ideia central de fraternidade. Isso aparece no conto de forma decisiva.
Daniel e Peachey se reconhecem como maçons. Mais adiante, encontram no Kafiristão homens que também conhecem sinais e marcas semelhantes aos da Maçonaria. Aquilo que deveria ser apenas um ponto de identificação fraterna acaba se tornando ferramenta de poder.
E aí começa o problema.
Os dois aventureiros, percebidos como seres especiais, quase divinos, passam a governar. Daniel, principalmente, começa a acreditar demais no próprio personagem. O homem que fingia ser rei começa a se imaginar rei de verdade. Depois, mais que rei: quase um deus.
É uma armadilha antiga.
O poder raramente corrompe de uma vez. Ele primeiro sussurra. Depois, convence. Por fim, exige obediência.
Daniel tinha feito um pacto com Peachey: nada de bebida, nada de mulheres, nada de perder o foco antes que o plano estivesse completo. Mas, quando se vê no alto, cercado de reverência, ele esquece o acordo. Decide casar-se. Quer uma rainha, um herdeiro, uma dinastia.
Só que, para aquele povo, um deus não podia se casar com uma mortal.
No momento em que Daniel tenta beijar a moça escolhida, ela o morde. Ele sangra. E o sangue denuncia tudo.
Deus não sangra.
A farsa cai. A revolta começa. O reino desaparece.
A grande lição maçônica do conto está aí. Daniel quis governar homens, mas não conseguiu governar a si mesmo. Quis usar símbolos de elevação, mas continuava preso às próprias paixões. Quis ser rei antes de desbastar a própria pedra bruta.
Peachey, por outro lado, mesmo longe de ser um santo, entende melhor o limite. Ele lembra o pacto. Tenta conter o amigo. Permanece fiel até o fim.
No fundo, Kipling parece nos dizer que a verdadeira realeza não está na coroa, nem no cargo, nem no reconhecimento dos outros. Está no domínio interior.
Porque o homem pode conquistar terras, títulos e aplausos. Mas, se não vencer a si mesmo, continuará sendo apenas um súdito das próprias vaidades.
E talvez essa seja a frase que resume tudo:
ninguém pode ser mestre antes de ser mestre de si.





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