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Liberté Chérie - A Luz entre as Trevas Absolutas

14 de mai.
2 min de leitura


A história da Loja Maçônica Liberté Chérie insere-se no contexto extremo dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mais especificamente no campo de Esterwegen concentration camp, onde prisioneiros políticos classificados como “Nacht und Nebel” (N.N.) eram mantidos sob rigoroso confinamento, submetidos a condições degradantes e frequentemente destinados ao desaparecimento silencioso. Entre esses prisioneiros encontravam-se diversos membros da resistência belga, incluindo maçons, identificados pelo triângulo vermelho em seus uniformes.


A partir de maio de 1943, no barracão nº 6, um núcleo inicial de maçons — entre eles Paul Hanson, François Rochat, Jean Sugg e Guy Hannecart — passou a reunir-se discretamente, formando um “Círculo Fraterno”. Esses encontros ocorriam em condições de extremo risco, aproveitando momentos de menor vigilância no barracão. Um elemento decisivo para isso foi a solidariedade entre prisioneiros de diferentes crenças: enquanto os católicos, conduzidos por um padre também detido, reuniam-se para a missa no fundo do dormitório, outros presos — inclusive não crentes — organizavam a vigilância para evitar a repressão dos guardas. Nesse contexto, os maçons também se beneficiavam desse sistema de proteção mútua, utilizando esses momentos para realizar suas próprias sessões em relativa discrição.


Com a chegada de novos irmãos, como Luc Somerhausen, Joseph Degueldre e Amédée Miclotte, o círculo evoluiu e, na segunda quinzena de novembro de 1943, foi formalmente fundada a Loja. Mesmo sem qualquer estrutura material, organizaram-se conforme a tradição: Hanson assumiu como Venerável Mestre, Somerhausen redigiu os estatutos e os demais irmãos ocuparam funções ritualísticas. As reuniões, realizadas com base na memória e na reflexão, transformaram-se em verdadeiro exercício de resistência moral, reafirmando valores como liberdade, dignidade e fraternidade em um ambiente projetado exclusivamente para destruí-los.


A trajetória da loja, entretanto, foi breve e marcada pela brutalidade do sistema concentracionário. Transferências, execuções e as chamadas “Marchas da Morte” dizimaram grande parte de seus. Apenas Somerhausen, Degueldre e Fernand Erauw — este último iniciado no próprio campo — sobreviveram, sendo libertados em 1945 após enfrentarem condições extremas de fome, exaustão e violência.


O nome “Liberté chérie” expressa de forma direta o anseio daqueles homens, sendo inspirado, segundo testemunhos, na canção dos prisioneiros Le Chant des Marais, símbolo de esperança no cativeiro. Sua identidade simbólica foi reforçada por um emblema concebido por Ferdinand van Horen, representando a condição dos prisioneiros N.N. associada ao ideal maçônico de liberdade, igualdade e fraternidade.


Antes do fim da guerra, prevendo o colapso do campo, os irmãos ocultaram seus registros — atas, estatutos e documentos — em uma caixa metálica enterrada nas proximidades do barracão, buscando preservar a memória da Loja. Assim, a “Liberté chérie” permanece como um dos mais poderosos testemunhos da história: não apenas da maçonaria, mas da capacidade humana de resistir espiritualmente à opressão. Em meio à barbárie, a cooperação entre diferentes crenças — simbolizada também pelo apoio indireto do padre e de seus companheiros de fé — revela que, mesmo nas condições mais desumanas, a solidariedade e os valores universais podem prevalecer.

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